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Travessuras, Leituras e Produção de Textos


Por que mudei o nome do Blog?

 

Por que mudei o nome do Blog?

O nosso nome é um traço muito forte e significativo de nossa identidade. Mudei o nome do Blog de Língua Portuguesa com ênfase em Leitura e Produção de Textos para Travessuras, Leituras e Produção de Textos.

Por quê? Fiquei diante de mim mesma organizando o elenco de motivos que havia muito tempo me sacudia nas horas mais inapropriadas exigindo de mim essa ação que ora se inicia pelos toques dos meus dedos e as batidas do meu coração.

1. "Travessuras" é uma palavra que me remete às aventuras, imaginação e espanto de uma criança na vivência traumática e definidora do seu estado de ser-no-mundo-com durante o processo de concepção até o nascimento - de chegada a este mundo humanamente humano, repleto de movimento entre isto, aquilo e aquilo outro, entre o belo e o feio, entre o natural e o cultural, entre a ativação e a paralisia, enfim entre os pares complementares de opostos e, mais inusitado ainda, entre os espaços intransponíveis entre eles (os opostos) tão importantes quanto... No dizer de Clarice Lispector, "existe um espaço entre dois grãos de areia", acrescentaria e mistérios também. Vejamos no poema a seguir:

 

Dá-me a tua mão


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.


De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.


Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

 

Nessa palavra “travessuras”, então, há um desejo de cuidar da dimensão lúdica, poética, de uma linguagem que corta, que traz a possibilidade da criação pela criação, com o compromisso apenas ético de dizer sobre o mundo no mundo imbuído de uma esperança numa vida melhor para todos, impregnando a si e encharcando outros de sentido e vida...

2. "Leituras" é preciso ler o mundo e compartilhar esse mundo lido para que todos juntos possam em comunhão transformar o mundo lido, já preconizou muitos educadores, entre eles mais contundentemente Paulo Freire. Embora correndo o risco de ser uma síntese panfletária, creio ser a verdade mais próxima: aquele que não ler é incapaz de pensar sobre o mundo e, estando no mundo, transformá-lo.

É preciso saber que “não há ‘pronúncia’ do mundo sem consciente ação transformadora sobre o mesmo. ‘Ação consciente’ a que Marx várias vezes se referiu. Mas é necessário sublinhar-se, também, que diferentes maneiras de ‘pronunciar o mundo’. A das classes dominantes, que determina o silêncio das classes dominadas ou a aparência de sua voz, na sua recuperação por aquelas, e das classes dominadas, que demanda sua organização revolucionária para a abolição das estruturas de opressão” (FREIRE, 2001, p. 60).  

Óbvio, que não basta apenas lê-lo ou saber lê-lo. É preciso ler em comunhão. Isto é um fato, mas é preciso saber ler. “A mera aprendizagem da leitura e da escrita não faz milagres. Não é ela, em si mesma, a que cria empregos”, por exemplo, afirma Freire (2001, p. 55).

De olhar ingênuo ou com intencionalidades escusas, pessoas podem afirmar que a realidade social não é transformável e/ou afirmar que somente aqueles capazes de ler, conforme os ditames da ideologia dominante, serão capazes de “alcançar o paraíso” e, se por acaso não conseguem, é por sua única e exclusiva culpa.

É algo importante perceber que a realidade social é transformável; que feita pelos homens, pelos homens pode ser mudada; que não é algo intocável, um fado, uma sina, diante de que só houvesse um caminho: a acomodação a ela. É algo importante que a percepção ingênua da realidade vá cedendo seu lugar a uma percepção que é capaz de perceber-se; que o fatalismo vá sendo substituído por uma crítica esperança que pode mover os indivíduos a uma cada vez mais concreta ação em favor da mudança radical da sociedade. Ao trabalhador social reacionário nada disso interessa. (FREIRE, 2001, p. 46)        

3. "Produção de textos": é uma possibilidade então de compartilhar o mundo-aí, ressignificando-o e transformando-o em prol da vida, da alegria e o bem-querer e viver coletivamente... É a possibilidade de construir uma morada, que se não for eterna, já que tudo é efêmero, penso eu, frágil e sempre passagem, ao menos tenha sentido, onde os habitantes sejam coresponsáveis pela sua construção e mudanças necessárias mediante o aprendizado de mecanismos quer seja do domínio do processo discursivo, no qual o indivíduo se constitui como autor, quer seja do domínio dos processos textuais nos quais ele marca a sua prática de autor.

Advogo, portanto, que seja de responsabilidade do espaço destinado socialmente para tal finalidade – a escola – a aprendizagem do processo de leitura e escrita, sendo não somente aqueles profissionais da língua portuguesa, mas os professores independentemente de suas áreas de conhecimento e atuação aqueles que criarão as situações significativas para que os aprendizes sejam capazes de utilizar os recursos expressivos necessários de convivência e interação, fazendo uso e inventando diferentes e amplas formas de representação e se constituindo num campo identitário a partir das diferenças e singularidades dos membros de sua comunidade linguística e do seu sistema de referências a qual fazem parte os indivíduos de uma dada sociedade sem levar em conta os privilégios sociais, econômicos e políticos de poucos. A unidade do diverso: reunião dos falares dos sujeitos de diversas regiões e classe social distinta.   

 

Desse modo, os estudantes são tomados pela sua inventidade e potência criadora a favor de um mundo-com, isto é, de todos e para todos, e o professor que, trabalhando com jamais sobre os estudantes, a quem considera sujeitos e não objetos, “opta pela mudança não teme a liberdade, não prescreve, não manipula. Mas rejeitando a prescrição e a manipulação, rejeita igualmente o espontaneísmo” (FREIRE, 2001, p. 47).

Tenho mais o que compartilhar, mas por enquanto fico por aqui. O importante é que conseguir ampliar o universo de interlocutores: leitores libertos, escritores libertos. Não escrevo agora apenas para os professores de uma determinada fatia do conhecimento, mas para todos aqueles que amam a leitura e a produção de textos para a liberdade e a emancipação...

 

 

REFERÊNCIAS

FREIRE, P. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

LISPECTOR, C. Dá-me a tua mão. Disponível em: // http://www.revista.agulha.nom.br// Acesso em: 10 Ago, 2009.

 

 

 



Escrito por Jilvania Lima dos Santos Bazzo às 12h21
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O que há em comum entre a vida ordinariamente comum dos seres humanos e as obras a seguir catalogadas?

 

GRIMM, J. Contos de Grimm1: animais encantados/ Irmãos Grimm; apresentação, tradução e adaptação, Ana Maria Machado; ilustrações, Ricardo Leite. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. (Literatura em minha casa; v. 4. Clássico universal)

ESTÉS, C. P. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem? Tradução Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Roco, 1994. (Arco do Tempo)

BRANDÃO, J. S. Mitologia grega2. Petrópolis: Vozes, 1986. (Vol. I, II, III)

LISPECTOR, C. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

 

 

 

_______________________________________________________________

1. Os  contos dessa obra são: A serpente branca; O ganso de ouro; A raposa e o gato; Os dois irmãos; Os sete corvos.

2. Os mitos que me refiro, nessas obras de Juanito de Souza Brandão, são:  Eros e Psique; Ulisses, constantes no Vol. II.

 

 

 



Escrito por Jilvania Lima às 08h04
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O DIA EM QUE INVENTEI TRABALHAR COM PORTFÓLIO

PARTE 2

O QUE É PORTFÓLIO


Existem pelos menos três tipos de portfólio:

• O Portfólio Particular

• O Portfólio de Aprendizagem

• O Portfólio Demonstrativo
 
O primeiro tipo de Portfólio, o particular, geralmente é utilizado pelos professores para manter registros de seus alunos, como boletim, informações pessoais como históricos médicos e número de telefone dos pais etc. São na maioria das vezes realizados registros sistemáticos, de observações de conduta, atitudes, situações e anotações de entrevistas feitas com os alunos, sendo algumas vezes com seus familiares. 
 
O segundo tipo, o de aprendizagem, favorece a reflexão sobre o próprio aprendizado e possibilita  uma comunicação mais direta entre professor e alunos e desses com os diversos conteúdos. Contem anotações, rascunhos e esboço preliminar de projetos em andamento, amostras de trabalhos e diário de aprendizagem do estudante. Esse material é de consulta tanto do professor quanto ao aluno. Caso permaneça na escola, poderá ser guardado em arquivos com repartições ou guardados em prateleiras por ordem alfabética.

Já o terceiro tipo – o  Portfólio demonstrativo– agrega os elementos do portfólio particular e o de aprendizagem, evidenciando os resultados dos trabalhos realizados, quer sejam aqueles que demonstram crescimentos efetivos quer sejam aqueles que apontam os problemas de aprendizagem. É composto de amostras representativas de trabalhos que demonstram os avanços importantes do aluno ou problemas persistentes. Quando se tratar de crianças, o professor poderá dar aos pais, que além de poder escolher itens para o portfólio demonstrativo, podem no final do ano apresentá-lo para a professora da série seguinte. Contem fotografias, gravações, desenhos, cópias de relatos narrativos dos alunos, trabalhos artísticos, pesquisas, produções diversas e diários de aprendizagem. No ensino superior, o estudante apresenta o seu percurso de aprendizagem, evidencia os textos lidos, apresenta os trabalhos realizados, bem como os demais item anteriormente mencionados, como fotografias, desenhos etc.

CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS
 
De acordo com Hernández (1998; 2000), o Portfólio é definido como uma coleção seletiva de itens que revelam, conforme o processo se desenvolve, a reflexão sobre os diferentes aspectos do crescimento e do desenvolvimento de cada aluno, ou de cada grupo de alunos. O aluno é orientado para ser claro e objetivo ao revelar, analisar e discutir sua própria aprendizagem e desenvolvimento durante o processo, por meio de comentários pessoais integrados em cada momento de sua produção ao compor o Portfólio.

Esses comentários constituem um importante instrumento de avaliação e de auto-avaliação, devendo o aluno registrar as aprendizagens mais significativas dos conteúdos abordados, evidenciando reflexões sobre a sua construção, isto é, o que aprendeu, se ampliou seu conhecimento, seja por meio das aulas, textos, pesquisas, palestras, seminários, reportagens, vídeos, trabalhos de extensão à comunidade. (HERNÁNDEZ, 1998; 2000)
 
Finalmente, vale mencionar que, segundo Villas Boas (2004; 2006), em educação o portfólio apresenta várias possibilidades: uma delas é a sua construção pelo aluno. Neste caso, reforça a ideia de ser o portfólio uma coletânea de suas produções, as quais apresentam as evidências da sua aprendizagem. É organizado por ele próprio para que ele e o professor, em conjunto, possam acompanhar o seu progresso. Serve para vincular a avaliação ao trabalho pedagógico em que o aluno participa da tomada de decisões, de modo que ele formule suas próprias idéias, faça escolhas e não apenas cumpra as prescrições do professor e da escola. Conforme preconiza a autora, nesse contexto, a avaliação se compromete com a aprendizagem de cada aluno e deixa de ser classificatória e unilateral. O portfólio é uma das possibilidades de criação da prática avaliativa comprometida com a formação do cidadão capaz de pensar e de tomar decisões. Para Villas Boas, alguns princípios–chave orientam a sua construção, a saber:

 


- O primeiro deles, como se percebe, é o da sua construção pelo próprio aluno, possibilitando- lhe fazer escolhas e tomar decisões.

- Essa construção é feita por meio da reflexão, porque o aluno analisa constantemente as suas produções. Além disso, ele é estimulado a realizar atividades complementares, por ele selecionadas.

 

- Esse processo favorece o desenvolvimento da criatividade, porque o aluno escolhe a maneira de organizar o portfólio e busca maneiras diferentes de aprender.

- Enquanto assim trabalha, ele está permanentemente avaliando o seu progresso. A autoavaliação é, então, um componente importante.

- O trabalho pedagógico e a avaliação deixam de ser de responsabilidade exclusiva do professor. A parceria passa a ser um princípio norteador das atividades.

- A vivência desse processo dá oportunidade ao aluno de desenvolver sua autonomia frente ao trabalho pedagógico. Ele percebe que pode trabalhar de forma independente e não ficar sempre aguardando orientação do professor. Forma-se, assim, o cidadão e o trabalhador capaz de ter inserção social crítica.

- O trabalho com o portfólio tem início com a formulação dos seus propósitos, para que todos saibam claramente em que direção irão trabalhar. Poderá haver propósitos comuns ao grupo de aluno se outros criados por cada um deles, para que atendam seus interesses individuais.

Ainda na perspectiva de Villas Boas, é necessário que professores e alunos, em conjunto, definam os descritores (critérios) de avaliação, levando em conta, entre outros aspectos, os propósitos. Como os dois segmentos avaliam a construção do portfólio, ambos devem se basear nos mesmos critérios. Para a autora, a adoção adequada do portfólio favorece a prática da avaliação formativa, voltada para o desenvolvimento do aluno, do professor e da escola. Além disso, o seu uso permanente faz com que deixe de ser apenas um instrumento de avaliação e passa ser a própria organização do trabalho pedagógico da escola como um todo e da “sala de aula”.
 
Considerando ainda que posso contribuir, nesse espaço, para o processo formativo dos professores, seguem os itens que compõem o portfólio para trabalhar na Educação Básica:

+ Diários de aprendizagem;
+ Mostra de trabalhos;
+ Registros de caso;
+ Registros sistemáticos;
+ Trabalhos artísticos;
+ Produtos de avaliação de desempenho;
+ Fotografias;
+ Registros escritos;
+ Entrevistas com os alunos;
+ Registros de reuniões de análise de portfólio;
+ Relatos narrativos.

EXEMPLOS DE:

1. DIÁRIO DE APRENDIZAGEM

Nome:          Professora:
Data:            Ano/Série:

O que tenho aprendido:

O que quero Aprender mais:

Planejo Fazer:

Comentários do professor:
 
2. REGISTRO DE CASO

Nome:                     Data:
Evento:

Situação:

Detalhes:

Comentários:

3. MOSTRA DE TRABALHO

(Comentário do professor)
Nome:                                                Data:
Trabalho:

___ Iniciado pelo professor
____ Iniciado pelo estudante

Habilidade/conceito:

Referência:
____ Iniciante _____ Em desenvolvimento
____ Domínio ______ Avançado

Observação:

4. REGISTRO SISTEMÁTICO

Nome:                                               Data:
Observador:                                    Hora:

 

Atitude ou comportamento:

 

Situação:

Detalhes:

Razão para observação:

Comentários:

Documentação através de álbuns

Comentários das crianças (em forma de texto)

Eu critico:

Eu felicito:

Eu proponho:

 

REFERÊNCIAS


HERNÁNDEZ, F. Cultura Visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2000.
HERNÁNDEZ, F. Transgressão e mudança na educação: Os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1998.
SANTOS, Maria Lúcia. A expressão livre no aprendizado da Língua Portuguesa - Pedagogia Freinet. São Paulo: Editora Scipione, 1993.
SHORES, E & GRACE, C. Portfólio: um guia passo a passo para o professor. Porto Alegre: ARMED Editora, 2001.
VIEIRA, Vania M. O. Portfólio: Uma proposta de avaliação como reconstrução do processo de aprendizagem. In: Revista: Psicologia Escolar e Educacional. ABRAPEE. Vol. 6 nº 2 junho/dezembro 2002, p. 149-153.
VILLAS BOAS, B. M. F. . Portfólio, avaliação e trabalho pedagógico. 1. ed. Campinas: Papirus, 2004.
VILLAS BOAS, B. M. F. . Portefólio, avaliação e trabalho pedagógico. 1. ed. Porto, Portugal: Asa, 2006.



Escrito por Jilvania Lima às 20h19
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O DIA EM QUE INVENTEI TRABALHAR COM PORTFÓLIO

PARTE 1

Salvador, 20 de maio de 2009.
Excelente dia a todos...

Permitam-me dirigir algumas palavras aos futuros professores, que estão se preparando para concluir o curso de Licenciatura. 

Após o término das atividades deste semestre  e diante também de minha incapacidade de atribuir uma nota/conceito aos portfólios produzidos pelos meus alunos, resolvi escrever e publicar essas reflexões em atendimento a algumas solicitações, mas em especial pela admiração que nutro aos muitos educadores verdadeiramente preocupados com a qualidade do aprendizado e que pensam em utilizar esse recurso didático como instrumento de avaliação de aprendizagem.

Reconheço também que muitos de nossos alunos demonstram capacidade de buscar informações, criar vínculos e estabelecer relações durante a construção conjunta do conhecimento, outros não – geralmente reproduzem as temáticas ou fragmentos de nossas reflexões em sala, muitas vezes de forma equivocada e vazia de sentido.

Isto posto, passo a seguir a compartilhar alguns rabiscos instigantes - derivados das leituras dos trabalhos apresentados.

Primeiramente, dá muito trabalho. Muito trabalho mesmo. Exige dos professores, uma capacidade de saber recepcionar o resultado do aprendizado de seus alunos, quando da entrega do mesmo, assim como uma capacidade de saber atribuir sentido ao que, em tese, não há sentido algum, principalmente quando se tratar de estudantes em curso final de graduação, licenciatura plena, e se espera deles um determinado nível de capacidade para aprender, um certo grau de maturidade intelectual, um certo potencial para trilhar um percurso de autonomia...

Como explicar, por exemplo, que prováveis concluintes de um determinado curso superior apenas listem – muitas vezes de forma equivocada, como mencionado no parágrafo anterior – o que supostamente se trabalhou em sala de aula, sem ao menos uma reflexão, sem estabelecer qualquer relação de sentido com a sua formação e o seu processo de aprendizagem?

É uma atividade extremamente desgastante. Inicialmente, os alunos ficam angustiados em saber a priori “o que é” e “como se faz”, sem compreender que o aprendizado ocorre durante o processo de desenvolvimento da atividade e – o que é pior – não conseguem buscar as informações e criar os meios necessários para possibilitar o entendimento requerido. Daí, nós, os professores, ficamos também angustiados - ou porque não atendemos àquela demanda imediatista dos alunos ou porque passamos horas e horas planejando, estudando e preparando o material de apresentação do que seja o tal portfólio, “como se faz”, “o que deve ser priorizado” etc, discutindo inclusive a forma de apresentação do mesmo, e a maioria dos alunos, naquela aula, resolveu faltar ou “entra e sai a todo momento”.

Daí, para cumprir o planejamento – diga-se elaborado para atender a uma demanda do grupo – e, essencialmente, também respeitar aqueles que compareceram a aula, os professores trabalham com os alunos presentes o conteúdo solicitado. Dali em diante, em quase todos os encontros, dois ou três alunos – geralmente aqueles que não participaram daquela aula ou "estavam ali apenas por estarem", isto é, dispersos – dizem que não entenderam o que é o tal portfólio e etc e tal, tumultuando de certa forma o processo. O que fazer, professores?

SOBRE AS NOTAS ATRIBUÍDAS AO PORTFÓLIO

Considerando que, ao fazer o Portfólio, o estudante está ciente de ser responsável pela construção de seu próprio conhecimento e que, nessa dinâmica, sua aprendizagem resulta de um trabalho que revela a autoria de sua caminhada, capaz de construir as estratégias necessárias a cada momento ou situação, de forma criativa, para buscar novas linhas de ação, as notas atribuídas poderão ser alteradas desde que observadas as disposições a seguir colocadas.

Para aqueles que somente descrevem algumas poucas atividades realizadas em sala de aula, atribuo a nota 5,0; para aqueles que apenas descrevem algumas e comentam outras, atribuo a nota 6,0; e para aqueles que descrevem a maioria das atividades e fazem comentários significativos atribuo a nota 7,0; e para aqueles que levam em consideração o plano de curso e apresentam uma reflexão densa em torno dos estudos desenvolvidos, atribuo a nota 8,0, 9,0 ou 10, conforme articulação feita entre o planejamento do curso, as suas expectativas e motivações, bem como a realização das atividades.

Caso os estudantes NÃO concordem com o estabelecido, peço gentilmente que eles me encaminhem um e-mail, até uma determinada data, e argumentem acerca dos pontos trabalhados, refletindo sobre o aprendizado adquirido durante o curso, as leituras realizadas durante o período..., lembrando a todos que não quero saber o que fiz em sala de aula, porque o que fiz eu sei. Eu quero e preciso saber o que cada um aprendeu, quais as suas dificuldades e o que cada um fez para superá-las.
 
SOBRE A PRIMEIRA DIFICULDADE ENCONTRADA

Tendo em vista que a primeira dificuldade que a maioria apresentou foi entender o que significa portfólio e não saber o que fazer para superar esta dificuldade,  apresento na parte 2 algumas informações - O que é Portfólio.
 



Escrito por Jilvania Lima às 19h42
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Ler e produzir textos

LER E PRODUZIR TEXTOS

                                                 Jilvania Lima

Honestamente,  embora concordando com a perspectiva de Kleiman (2004) - necessidade do professor compreender a natureza polifônica, polissêmica e polilógica da leitura, concebendo-a como uma prática social e emancipatória; engajar-se intelectual, político-ideológicamente numa prática capaz de criar condições para o desenvolvimento pleno do estudante, nas suas dimensões afetivas, cognitivas e físicas, tendo clareza dos pressupostos de cunho social que sustentam essa prática, penso que é chegada a hora de ampliar os espaços para o florescimento da leitura e produção de textos, quer seja nas dimensões orais, visuais e/ou gráficas.

Isto posto, creio que esse gênero textual - o blog - pode favorecer a formação de leitores livres, autônomos, criativos e felizes, porque oferece condições para uma produção autêntica a ser lida por outros interlocutores que não apenas o professor. E, nessa medida, ao produzir discursos, o estudante vai se constituindo nesse élan de criação que acolhe e promove o outro tal qual a si mesmo - compreendendo aqui a dimensão bakhtiniana de outro como aquela pessoa que é, antes de tudo, eu-outro, e "em todos os momentos está voltada para fora, dirige-se intensamente a si, a um outro, a um terceiro. Fora desse apelo vivo para si mesma e para outros ela não existe nem para si mesma." (BAKHTIN, 2002, 256).

Nesse sentido, creio que esse espaço pode contribuir para a plasmação da própria existência de cada um como uma obra de arte. No sentido de que o artista vive a necessidade de criação como sinônimo de sua existência como leitor, produtor de textos e sentidos... O próprio modo de existir lendo e produzindo, criando, justifica a sua permanência e caminhada pelo seu caminho de ser-sendo...

Para iniciar o nosso diálogo e finalizar minha "fala", quero deixar, então, registrado que é preciso simplesmente um professor que leia, que produza e que deixe o outro ser o caminho de sua própria morada, sendo e fazendo a sua vida com arte... pensando, obviamente, em situações didáticas capazes de lançar o outro no exercício, livre exercício criativo, de leitura, arranhaduras e criação de seus textos... Lembrando, apenas, que a própria leitura das marcas dos textos produzidos pelos alunos fará parte do acervo de todos os participantes. Com isso, professor e aluno lêem para produzir e produzem para ler... E haja trabalho!

     

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: 2002.

KLEIMAN, A. Oficina de leitura: teoria e prática. São Paulo: Pontes, 2004.



Escrito por Jilvania Lima às 11h24
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Nois kumcertemo bicicreta!

NOIS KUMCERTEMO BICICRETA 

                                        Jilvania Lima

 

Estava eu, um dia, a andar por aí pelas ruas de Salvador, capital da Bahia. Lembrando de minhas primeiras lições, tanto como pessoa quanto como profissional, pensava na escola, nos professores, no povo desse mundo de meu Deus. Refletia sobre as marcas que a escola havia deixado em mim... (Sabiam que ensinar é deixar marcas? É marcar o outro com a nossa presença?)

Dizem que sou uma excelente contadora de casos. Mas, nesse caso, estou com dificuldades para criar o enredo, porque não entendo (mas, buscando compreender), os motivos que mobilizam a escola (escola é gente) a produz nos sujeitos da aprendizagem náuseas diante de textos não-padrões. Se é verdade que há, conforme José Saramago afirma no documentário Língua: vidas em português, de Victor Lopes, muitas línguas portuguesas, que a sua identidade está justamente nas múltiplas possibilidades de sua materialidade, por que temos dificuldades de acolher uma produção como esta: Nois kumcertemo bicicreta?

Por que identifica a classe social a que pertece o sujeito? Por que temos dificuldades de acolher as diferenças? Por que aprendemos a ser autoritários e desejar a padronização em todos os níveis e modos de existência? Pensar na diversidade que constitue a unidade da Língua Portuguesa é, sobremaneira, refletir sobre a nossa condição de humanos que somos.

Fiquei pensando no sujeito que havia escrito o texto: "Nois kumcertemo bicicreta". De onde ele é? O que ele gosta de fazer? Como foi o seu percurso na escola? Será jovem adolescente, uma criança? Será um jovem adulto? Quem será esse (a) que produz?

Ao tempo em que dialogava comigo e viajava na possibilidade do encontro "mental" - será isso possível? - com o meu interlocutor invisível - conscientizava-me da beleza e da multiplicidade de formas e modos de viver. Em minha memória, os efeitos da leitura de um livro insistiam em continuar aquela conversação pensante solitária - solidária -, trata-se da obra de Bortoni-Ricardo, intitulada "Nós cheguemu na escola, e agora?". Com a autora, fazia um passeio pelos meus processos formativos como professora, lembrava-me das tolices que fazia na ilusão que estava contribuindo positivamente com a formação de meus alunos como leitores ativos, produtores de textos: autônomos, bem como das maravilhas que, atualmente, venho promovendo em sala de aula com a reta intenção de possibilitar que cada um seja a medida de todas as coisas, responsabilizando-se pelo seu caminho e modos de caminhar... Imprimindo em cada um a força de ser cada um o que é, como um fazer da própria vida uma obra de arte... 

Imediatamente, veio ao encontro a figura linda de Paulo Freire, em especial a sua fala registrada num vídeo apresentado por Moacir Gadotti da Coleção Grandes Educadores, da Atta Vídeo. Freire relata o seu encontro com trabalhadores e uma aula de cidadania dada por um dos presentes como jamais ele pudesse imaginar que teria. Dizia o seu interlocutor que, para Paulo, era muito fácil falar em diálogo, solidariedade, amor etc, ao tempo em que traçava um paralelo entre as suas vidas.

Dizia ele para Paulo Freire, "veja o Sr., certamente, tem uma casa bonita, solta de dois lados, com jardim, comidinha na hora certa, se tiver filhos, meninas e meninos, cada um deve ter o seu quarto, casa de cachorro, biblioteca etc, o Sr. sai para trabalhar, quando volta, seus filhos estão todos tomados banhos, daí vocês sentam à mesa, jantam e cada um vai para sua cama macia dormir... E agora, analisem a nossa situação, moramos numa casa que é um único vão para tudo. Lá dormem as crianças, a mulher e o marido, o cachorro, se tiver, enfim todo mundo junto. Pela manhã, não se acorda com o raiar do sol, mas com o apito da fábrica que faz a todos nós levantar. Quando se sai para trabalhar, se tiver trabalho, os meninos ficam em casa e, quando você chega, estão todos  sem tomar banho e com fome - ou porque o salário não deu ou não lhe pagaram - , e você não tem condições de comprar a comida necessária para alimentar o corpo deles. Daí, antes de chegar em casa, diante daquela tristeza toda, a gente já passa antes num bar e toma umas e outras. Veja se, para o Sr., não é mais fácil falar sobre essas palavras bonitas?"

E assim, fico me perguntando: já que "dominamos" a norma culta, por que também  a escola não aprende a "kuncertar bicicreta" ao invés de viver como se a vida se resumisse nela mesma? Por que a escola não acolhe e equaciona, soma e multiplica as potencialidades de cada um e contribui para a diminuição dos excessos?

   

 



Escrito por Jilvania Lima às 10h30
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O problema das supra-interpretações

O PROBLEMA DAS SUPRA-INTERPRETAÇÕES NA RELAÇÃO EU-TU

                                                                                           Jilvania Lima

Contextualização, ou da justificativa

 Nesses últimos meses, venho vivenciando momentos dificílimos relativos às interpretações geradas na relação indivíduo-indivíduo, quer seja mediante textos orais ou escritos.

 Ao mesmo tempo, agradecida e reverenciando a vida por me possibilitar experimentar os acontecimentos de forma inteira, isto é, de corpo inteiro no movimento da experiência, bem como perceber, concretamente, o maior problema a ser enfrentado pelos educadores de um modo geral: a linguagem - compreendida como lócus de produção de discursos e constituição de sujeitos.   

 Como Freire, no pulsar que habita em mim, respiro a inteireza do meu ser nas incertezas tensivas do movimento da vida. Como ele, "não tenho parte esquemática, meticulosa, racionalista e outra desarticulada, imprecisa, querendo simplesmente bem ao mundo". Como ele, percebo, conheço, compreendo, com o meu corpo todo: sentimentos, paixões, razões também.  (FREIRE, 2001, p. 18)

 Penso que sou privilegiada. Um presente da vida: encontrar nas andanças pessoas que, na relação, me constituem. Carrego comigo a síntese de seres humanos que me possibilitaram ser-sendo na consciência da responsabilidade de superar a cada dia a mim mesma. Ser melhor a cada dia, tendo como parâmetro o minúsculo e arrogante eu para estabelecer o grau de melhoria... a superação contínua de ser-sendo o melhor que posso, revendo conceitos, atitudes, concepções, enfim, revendo-me.

 Aprendo, principalmente, com os equívocos, tendo a coragem de me olhar nos olhos da minha própria existência e seguir altaneira, saltitante comigo mesma...    

 Se não falássemos tanto, resolveríamos alguns de nossos problemas. Somos papagaios com uma superestrutura interpretativa de incertas certezas certas ...

 Sobre a linguagem: algumas considerações

 Nesse sentido, é demasiadamente ingênuo pensar que, simplesmente, a linguagem constitui o homem na perspectiva de ela ser compreendida apenas como a capacidade humana de se comunicar, sendo ainda atribuída a essa força de formação a dicotomia entre interno e externo. Não se trata de dentro e fora.

 Essa forma de compreender o processo de formação está lançada ao vento desde muito tempo, isto é, nada significa, a não ser apenas o de facilitar o entendimento daqueles que só conseguem compreender o que está diante de si mesmo, desde que bem "definido e simplificado", como resolver uma operação matemática do tipo 2 + 2 = 4. E pronto, ponto. Mais nada importa.

 Não é isto que se pretende dizer aqui. Ao se afirmar que a linguagem constitui o homem, compreendendo-a como o modo de ser do próprio homem, bem como o espaço de produção dela mesma e constituição de sujeitos, está se levando em consideração o sujeito também neste espaço interlocutivo. Para isto, precisamos responder: o que é o sujeito? Quem é este que se credita uma participação no processo de sua formação. Ele escolhe? Ele decide? Ele se educa? É educado? Se educação é um processo formativo que se dá em todos os ambientes de convivência humana, quem se responsabiliza por este processo a não ser cada um na sua relação-com?

 Já dizia Rousseau que "a educação é uma arte, é quase impossível que ela tenha êxito, já que o concurso necessário a seu sucesso não depende de ninguém." (1999, p. 09). Compreendo que, se não depende de ninguém, a responsabilidade por esse processo se torna de todos aqueles envolvidos na relação.

 Se me relaciono com A, B e C, sou responsável pelo caminhar de A, B e C, e a recíproca é verdadeira. Certamente, outras pessoas não convivem com A, B e C, mas com X, Y e Z, o que as tornam, necessariamente, responsáveis por eles, óbvio, como disse anteriormente, num processo de ir-e-vir, de cooperação, de partilha mútua. Obviamente, deixo claro, antes de ser responsável por outrem, é preciso ser responsável por si mesmo.

 Penso que uma das nossas maiores dificuldades para conviver, em base a um ethos ético-solidário suspensos no nada, é que sempre queremos resolver o problema dos outros, quando, se cada um se preocupasse com os seus, se poderia resolver muitas questões indesejáveis na relação humana, não só local, mas planetária.

 Por exemplo, somos capazes de ajudar, seja material e/ou afetivamente, a um determinado grupo ou indivíduo, quando os nossos vizinhos (os nossos próximos) estão vivendo em condições objetivas e simbólicas inadmissíveis para a sobrevivência da própria espécie. Muitas vezes, nem os enxergamos, estamos, muitas vezes, tão preocupados com os outros, que nos esquecemos de nós mesmos, entendendo o outro (próximo) como extensão de nós.

 Para cuidar, é preciso estar cuidado, curado. É preciso muito esforço, muito trabalho...

 Algumas brevíssimas considerações

 Percebo que, se tivéssemos a consciência de que constituímos o que somos pela/na relação, seríamos mais artistas...

 Percebo que há muita interpretação tomada como verdade absoluta...

 Percebo que abusamos da fala, quando poderíamos aproveitar mais o olhar, o sorriso, o abraço, o silêncio...

 Percebo que poderíamos pintar, dançar, cantar e desenhar mais...

 Percebo que poderíamos compor mais poesias, produzir mais músicas ao invés de tantos sermões, calúnias, fofocas, mexericos, futricas...

 Percebo que poderíamos experimentar a surdez, a cegueira, a mudez de uma forma profundamente criativa... ser-eu sendo o outro, tal desejou ser Fernando Pessoa a ceifeira...

 [...]

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso ! Ó céu !
Ó campo ! Ó canção ! A ciência

[...]

(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)

 

Bem, fico por aqui. Não consegui escrever o que realmente elaborei e conversei com algumas pessoas queridas sobre o problema das interpretações indivíduo-indivíduo (eu-tu)... mas, deixo aqui um borrão como sendo mais um projeto de texto.

Como diz o meu grande amigo e filósofo Cleverson Suzart: existem outras formas de dizer amém.

 

Referências

FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. São Paulo: Olho d'Água, 2001.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. / Trad. Roberto Leal Ferreira.  São Paulo: Martins Fontes, 1999. - (Paidéia)

 

 



Escrito por Jilvania Lima às 02h33
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Quem cuida do professor?

QUEM CUIDA DO PROFESSOR?

                                                            Jilvania Lima

 

 O passado é imprescindível quando carrega ou quando habita o presente, por isso, falarei do instante do agora encharcada do ontem vivido com as turmas do 6.º e 7.º semestres do curso de Letras, da instituição onde trabalho com formação de professores para atuação na educação básica. 

 Iniciamos os nossos trabalhos refletindo acerca do perfil do profissional da educação no Século XXI, provocados pela leitura de dois livros, Eu, líder (AMORIM et alli, 2006) e Líderes (BENNIS e NAMUS, 1998), e pela fala do Prof. José Ernesto Bologna, no vídeo Autoridade e Autonomia na sala de aula, com o intuito de problematizar a questão em torno das atitudes, das competências e das habilidades requeridas aos profissionais da educação, bem como das nossas próprias possibilidades existenciais como seres humanos complexos, inseridos em uma sociedade que nos exige participação efetiva na formação dos seus membros para continuarmos perpetuando a espécie.

 Das histórias narradas durante o nosso diálogo, pontuo a seguir aquelas que me deixaram espantada, no sentido filosófico do termo, e precipitaram a construção desse texto.

 1.Um estudante deixa de freqüentar a escola, ao retornar, justifica-se ao professor, relatando que era vigilante de uma empresa X e matou uma pessoa que a havia invadido, por isso fugiu para não ser preso em flagrante, voltando depois para responder ao processo em liberdade.

 [Os homens estão se matando para "proteger" uma "coisa privada". Estranha esta organização social, não?!!! E o professor, como recepciona essa informação?]

 2.Um professor graduado em história, amava e desejava trabalhar com filosofia, porém, para não ser "devolvido" à Secretaria de Educação, lecionava, no turno matutino, uma disciplina que odiava. À tarde, ministrava aulas de história em outra escola, onde enfrentava muitos problemas com alunos e pais de alunos, porque nunca conseguia cumprir o horário estabelecido. Detalhe, a escola sempre ignorava o fato de ele não ter condições de cumprir com o horário das duas primeiras aulas por causa da localização entre uma e outra unidade escolar e do transporte coletivo. Mesmo não almoçando, não havia tempo hábil para sair de uma escola e chegar na outra. Além disso, havia casado recentemente e ficado viúvo lodo depois. Eis o fato: ao descer do ônibus coletivo, sua mulher caiu e bateu com a cabeça no meio fio, vindo a óbito, deixando-lhe 3 filhos órfãos.

 [Ignora-se o humano e concebe o professor como máquina tarefeira. Que tristeza!]

 3.Um professor diz: "se essa turma a gente der muita asa. Hum! Não sei não." Daí um outro responde: "E estamos aqui para cortar a asa de alguém?" Um terceiro interpõe-se na conversa: "Aqui, os alunos devem ouvir e repetir o que falo, fazer o que mando e o que quero que eles façam. Eu sou o professor."

 [O que é mesmo ser professor? Excelente material para reflexão, análise e aprofundamento da questão.]

 Diante dessas situações, fiquei pensando Quem cuida do professor. Indagava-me se ele tem condições para levar a cabo a tarefa de educar o outro. Creio que, para realizá-la, é preciso ter a consciência da necessidade de educar a si mesmo. Perguntava-me, sem a disposição necessária para se educar na relação-com, é possível promover o ato educativo? E o que é mesmo a educação?

Por outro lado, também acredito que é preciso efetivar um projeto político-sociocultural para dar o suporte necessário ao professor, oferecendo-lhe condições de trabalho e de desenvolvimento continuado como pessoa humana...

 Sobre a educação

No Rascunho Digital (www.faced.ufba.br/rascunho_digital), escrevi alguns textos - que, inspirados nas palavras do filósofo Nietzsche, em Humano, demasiadamente humano: um livro para Espíritos Livres, e em Cecília Meireles, na obra Crônicas da Educação -, concebem a educação como o milagre da vida.

Sinto que, de fato, a educação promove milagres. Quando estão imersos em situações verdadeiramente educativas, os humanos se constituem em seres melhores para si e para os outros, virtuosos, solidários, éticos enfim.

Estabelecendo a relação entre essa concepção e a atividade cotidiana de um professor, penso que ele poderá contribuir com o processo de formação humana trabalhando não somente conteúdos inerentes à sua prática pedagógica, como também pode e deve favorecer o aprendizado da vida, isto é, o aprendizado do fazer-se-ser, fazer-se-conviver, fazer-se-conhecer, fazer-se-aprender. O que significa dizer que o movimento estruturante da relação e, portanto, do conhecimento e do saber, é a atitude.

Desse modo, um professor que perceba que em todos os ambientes (espaço-tempo-contexto) os seres humanos estão se formando e que a sua atitude na relação estabelecida entre professor-aluno-aluno é de vital importância para produzir conhecimentos, procedimentos e gerar novas atitudes, certamente, terá compreendido o valor de um profissional da educação e o grau de importância da sua profissão para a construção de uma sociedade mais justa, mais solidária e mais feliz.

 Sobre as competências e habilidades do professor no Século XXI

  Aos refletirmos acerca do perfil do profissional da educação deste século, entre tantos outros aspectos, os professores em formação destacaram como competências e habilidades:

- Saber se autoconhecer.

- Saber se co-responsabilizar pelo processo de formação humana.

- Saber cuidar do corpo, da mente, da família.

- Saber organizar o tempo para o trabalho, o lazer e as demais situações de convivência social.

- Saber ouvir, saber falar, saber ser e saber conviver com os outros.

- Ser capaz de inovar, experimentar e continuar os seus estudos.

- Ser capaz de envolver-se com o grupo, preocupando-se não apenas com os aspectos cognitivos, mas com as questões sociais e emocionais.

- Ser capaz de fazer a leitura acerca dos seres humanos, em especial dos seres humanos que estão com ele em sala de aula, buscando interpretar o mundo do outro em diálogo permanente com o seu mundo.

- Ser capaz de perceber que a formação humana ocorre na relação-com.

- Ser capaz de promover a análise e a construção de outros valores sociais, lançando uma idéia e refletindo sobre a mesma priorizando a pluralidade de argumentos e perspectivas interpretativas.

- Ser capaz de socializar a leitura feita e promover as mudanças necessárias para a melhoria desse "mundo lido" em conjunto.

- Ser criativo, buscar um discurso próprio, ser capaz de apaixonar-se e impregnar-se de sentidos e impregnar de sentidos o outro.

- Ser ético e saber ser o que daí deriva, como: ser solidário, ser justo, ser honesto, ser responsável, ser amável...

- Ser flexível, aberto a acolher o que lhe chega.

- Ter valores e saber reconhecer aqueles que fortaleçam a vida em comunidade.

- Ter capacidade de compreender os valores dos outros como resultados de sonhos e de realidades de cada um/grupo humano.

- Ter capacidade de usar todos os recursos tecnológicos disponíveis para o acesso e a produção do conhecimento.

Sobre o projeto político-sociocultural

Entre tantas utopias, espero um dia me tornar ministra ou secretária de educação, do município, do estado ou da federação. Não tenho pressa. Quem sabe aos 80 anos consiga, através de uma ação conjunta entre essas três instâncias governamentais, executar o meu projeto que ora apresento.

Caso não consiga, deixo aqui registradas algumas idéias tortas, jocosas e obviamente pretensiosas, na esperança que sejam materializadas em ações positivas para os professores, principalmente aqueles que cuidam da educação básica por algum gestor capaz de integrar a todos em prol da realização dessa utopia.

Os profissionais da educação, além de trabalharem em escolas localizadas próximas as suas residências e apropriadas, ou seja, com condições mínimas para o exercício da docência, serão dignamente remunerados e exercerão a sua função como professor num turno e noutro experimentará atividades culturais diversificadas.

Uma das minhas primeiras ações será um estudo acerca do nível de satisfação dos professores em seus locais de trabalho. O que pensam acerca da sua escola real e o que sonham para ela e para si mesmos serão levantados no intuito de planejar outras ações que promovam as melhorias necessárias.  

Penso que, anualmente, deverá ser traçado um plano cujo objetivo seja enviar grupos de professores para visitar outros povos e interagir com outras culturas. Inicialmente, começaremos com o nosso entorno até cruzar ou atravessar os oceanos... até que TODOS os professores tenham vivenciado experiências de natureza diversa em culturas diversificadas. Para isso, será necessário convênio com os órgãos responsáveis pelos meios de transportes e pela rede de hotelaria. 

Mediante também convênios com rede de cinemas, teatros, museus, clubes, discos, locadoras de vídeos/dvd/cd e restaurantes, será traçado uma outra ação que visa a possibilitar que os professores tenham acesso e vivenciem os acontecimentos desses espaços ou utilizem os seus serviços.

Como já afirmei acima, em um turno o professor exercerá a sua função docente, noutro apresentará na sua escola, mensalmente, o seu roteiro cultural e em encontros de integração, promovidos por cada unidade escolar ou grupo de escolas, dialogaria acerca de suas experiências, dos filmes, concertos, peças teatrais assistidas, comidas e bebidas experimentadas, povos visitados, podendo inclusive ser convidadas pessoas da secretaria de educação, da comunidade de setores e segmentos diferenciados, como artistas em geral, escritores e produtores. Além disso, outros eventos podem ser promovidos para refletir sobre outras temáticas a serem listadas conforme o interesse e a necessidade de cada grupo.        

É fundamental pontuar que não esperaremos as condições favoráveis, é preciso fazer e somente no fazer poderemos mudar o que é necessário ser mudado, ajustado ou fortalecido. Assim, não tenho expectativa, por exemplo, de primeiro equipar escolas, enviando livros e computados para depois promover as demais ações, pretendo executá-las na justa medida e simultaneamente.

Minha única certeza, entretanto: os professores precisam viajar, ler livros e outras variedades de textos, refletindo sobre as temáticas abordadas coletivamente, ir ao cinema, degustar temperos e bebidas dos mais variados povos, fazer passeios nos campos, nas praias, nos clubes... Os professores precisam ser felizes e ampliar o seu universo científico-artístico-cultural para promover o desenvolvimento dos demais seres que estão sob a sua responsabilidade.

A única exigência requerida aos professores: amar incondicionalmente a espécie humana sem planejamentos de transformação do outro no eu nem de retornos de qualquer natureza. Eles deverão fazer por fazer, simplesmente, para ser feliz e promover a felicidade onde quer que eles estejam.

Referências

AMORIM, T. N. G. F.; AMORIM, Américo N. G. F.; FREITAS, P. S.; FREITAS, T. J. S. Eu, líder: construindo o sucesso coorporativo. Rio de Janeiro: Qualitymark Editora, 2006. 

BENNIS, Warren & NAMUS, Burt. Líderes: estratégias para assumir a verdadeira liderança. Trad. Auriphebo Berrance Simões. São Paulo: Harbra, 1988.

BOLOGNA, José Ernesto. Autoridade e Autonomia na sala de aula. São Paulo: Atta Mídia e Educação, s/d. (Coleção Série Encontros)

MEIRELES, Cecília. Crônicas da Educação, 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Fundação Biblioteca Nacional, 2001. - (Cecília Meireles: obra em prosa)      

NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano: um livro para Espíritos Livres. /Trad. Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.



Escrito por Jilvania Lima às 02h29
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Bem-vindos à possibilidade do encontro entre o eu-virtual e o outro-virtual

BEM-VINDOS À POSSIBILIDADE DO ENCONTRO

ENTRE O EU-VIRTUAL E O OUTRO-VIRTUAL

 

Este blog tem como objetivo experimentar uma das ferramentas das tecnologias da comunicação e da informação (TIC) como um exercício de práticas de leitura e produção de textos.

Lendo um texto de Magda Soares, capturei suas palavras, transformando-as em minhas próprias, principalmente, porque considero os limites e objetivos deste texto, bem como a ênfase na idéia de que diferentes tecnologias de escrita geram diferentes estados ou condições naqueles que fazem uso dessas tecnologias, em suas práticas de leitura e de escrita, e entendo que diferentes espaços de escrita e diferentes mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita resultam em diferentes processos de aprendizagem e aquisição da língua na modalidade escrita e oral, quer seja verbal ou não-verbal.

Minha expectativa é que esse espaço possa contribuir com a leitura e a livre expressão resultante do encontro entre o eu-virtual e o outro-virtual, compreendendo que "cada pessoa existe antes de tudo como um 'outro'" (BAKHTIN, 2002, p. 257 - Problemas da poética de Dostoiévski).

Ainda com Bakhtin, pensando nessa possibilidade de leitura e escrita - tal qual uma janela aberta para o mundo e para o nada, de um movimento polifônico, de muitas vozes DES-veladas, a viver como fantasmas assombrando o vento e carregando consigo o tempo de esperas, penso que esse gênero, novo gênero, ao nascer, nunca suprirá nem substituirá quaisquer gêneros já existentes. Qualquer gênero novo nada mais faz que completar os velhos, apenas amplia o círculo de gêneros existentes.

Assim, vivendo com arte, sendo a própria caminhada ética como estética da existência, reforço a idéia bakhtiniana em relação à consciência pensante do homem e o campo dialógico do ser dessa consciência: toda a sua profundidade e especificidade são inacessíveis ao enfoque monológico.

Um abraço afetuoso a todos os visitantes, com votos de excelentes leituras, reflexões, mudanças e produções polifônicas.

Cordialmente,
Jilvania Lima 



Escrito por Jilvania Lima às 01h40
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